- País tem 87,4% da população em áreas urbanas e 38,4 milhões de motos; pesquisa global da Ipsos mostra que confiança em veículos autônomos ainda divide consumidores
São Paulo, setembro de 2026 - As características da mobilidade brasileira podem tornar o país uma referência importante para a próxima etapa do desenvolvimento de veículos autônomos, avalia Yuri Misnik, CTO da inDrive, plataforma global de mobilidade e entregas. Com 87,4% da população vivendo em áreas urbanas, segundo o IBGE, e uma frota de aproximadamente 38,4 milhões de motocicletas em 2026, segundo a Abraciclo, o Brasil combina alta urbanização com uma convivência intensa entre carros, motos, ônibus, bicicletas, pedestres e veículos de entrega, exigindo que sistemas autônomos interpretem uma variedade maior de situações de trânsito.
A confiança do público também será decisiva para essa transição. O Monitor de
Mobilidade 2026 da Ipsos mostra que, globalmente, 36% dos entrevistados dizem que se sentiriam seguros em um carro autônomo, enquanto outros 36% afirmam o contrário. Para Misnik, o equilíbrio entre as duas percepções reforça que a adoção da tecnologia dependerá não apenas de desempenho técnico, mas também de segurança percebida, transparência e adaptação às realidades locais.
“O próximo salto da autonomia não será medido apenas pela capacidade de um carro operar em uma cidade bem mapeada, mas pela forma como ele reage a ruas que mudam, diferentes tipos de veículos e comportamentos locais. Se a tecnologia quiser ser global, os dados e os testes também precisam refletir essa diversidade”, afirma Yuri Misnik, CTO da inDrive.
Para Misnik, a aceitação de novas tecnologias automotivas passa por benefícios claros para quem utiliza as cidades. Recursos de segurança, previsibilidade e capacidade de responder a situações reais de trânsito tendem a ser tão importantes quanto o avanço dos próprios sistemas de direção autônoma. Por isso, o desenvolvimento precisa considerar não apenas o que o veículo reconhece, mas também como interpreta o comportamento de diferentes usuários da via.
Veículos autônomos aprendem a partir de grandes volumes de dados obtidos por câmeras, sensores, mapas e simulações. O desafio, segundo o executivo, é evitar que sistemas validados em um conjunto restrito de cidades assumam que o trânsito funciona da mesma maneira em qualquer lugar. Em um país com forte presença de motocicletas, por exemplo, mudanças de faixa, travessias de pedestres e interações entre diferentes modais não podem ser tratadas como exceções, mas como parte estrutural da mobilidade.
A adaptação também passa por informações mais recentes sobre as ruas. Obras, acidentes, chuvas intensas, alagamentos e alterações temporárias na circulação podem tornar um mapa desatualizado em poucas horas. Entre as frentes citadas por Misnik estão mapas de alta definição combinados a dados operacionais em tempo real, processamento por inteligência artificial no próprio veículo para selecionar informações relevantes e proteger dados pessoais, além de simulações construídas a partir das características reais de cada cidade.
O setor já entrou em uma fase de expansão comercial, com serviços de robotáxi
avançando sobretudo nos Estados Unidos e na China. Para Misnik, o passo seguinte será testar até que ponto esses sistemas conseguem se adaptar a mercados com infraestrutura, clima e padrões de circulação diferentes daqueles em que as primeiras operações ganharam escala. Essa capacidade de adaptação será determinante para que a tecnologia avance para novas geografias.
Na avaliação do executivo, cidades com diferentes condições de infraestrutura e
comportamento não devem ser vistas apenas como um obstáculo para a autonomia, mas como ambientes capazes de produzir sistemas mais robustos e preparados para lidar com a diversidade da mobilidade no mundo real.
Para ele, a transição também precisa considerar quem hoje trabalha com mobilidade. "A adoção de veículos autônomos não deve pressupor que motoristas parceiros simplesmente deixem de participar da mobilidade. Acredito que precisamos criar caminhos para que eles também possam fazer parte dessa nova economia, inclusive em modelos ligados à operação e à propriedade de frotas autônomas. O ponto central é preservar a capacidade de escolha, permitindo que cada parceiro decida quando utilizar a plataforma e quais oportunidades considerar. A questão não é apenas o que será automatizado, mas quem poderá participar dessa transformação”, afirma.
Na avaliação do executivo, mercados como o Brasil ajudam a revelar justamente os desafios que podem determinar a escala global da tecnologia. “Se um veículo
autônomo conseguir operar com segurança em situações encontradas em cidades como São Paulo, Delhi, Jacarta ou Lagos, terá aprendido algo que ambientes mais homogêneos dificilmente poderiam ensinar. O futuro da mobilidade autônoma será decidido quando a tecnologia conseguir funcionar onde o mundo realmente vive”, conclui Misnik.
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